A Scanner Darkly

Richard Linklater, 2006 (USA) – imdb

- Publicado em 1977, “A Scanner Darkly” é uma das obras mais emblemáticas de Philip K. Dick sobre o consumo abusivo de drogas no longínquo ano de 1994 numa cidade da California. Em português há uma edição péssima da Livros do Brasil, totalmente dispensável.

- Fred e Bob Arctor partilham o mesmo corpo, embora desconheçam da existência um do outro. Fred é um agente da policia encarregue de desmantelar grupos de consumo de Substância D enquanto Bob Arctur faz parte de um desses grupos. O uniforme-camuflagem da policia permite que esta dualidade seja possível, impedindo conflitos entre as restantes personagens.

- A substância D é um psicotrópico que leva a uma desconexão dos dois hemisférios cerebrais com poderosos efeitos na construção da identidade e conhecimento da realidade, impedido Bob Arctur de discernir entre o seu papel como policia ou o outro de dependente da substância D. Há uma consciência que em cada momento há só um “eu” (consciência da unidade do eu) podendo surgir em situações depressivas e ansiosas, embora sejam mais exuberantes em alguns psicóticos que se sentem como duas pessoas.

- Com o tempo, Fred começa a espiar-se (ao Bob Arctur) de forma obsessiva através do “Scanner Darkly”, despertando para a relação com os companheiros de casa e com Donna, a namorada, todos eles dependentes da substância D. Todavia, os testes realizados na policia mostraram que Fred consumia droga, havendo necessidade de o afastar dos quadros e submeter-se a uma desintoxicação. Donna, que afinal era policia (usava o uniforme-camuflagem) encontra Fred já com sinais de síndrome de abstinência e o conduz a uma clinica, “The New Path” e aí tudo ganha um significado. Inclusive as flores azuis.

- Paralelamente temos os companheiros de Bob, responsáveis por momentos hilariantes decorrentes dos efeitos da substância D desde a perseguição paranóide, o discurso logorreico com fuga de ideias, as alucinalões visuais e cinestésicas.

- O filme foi filmado em poucos meses, mas na pós-produção Linklater retomou a rotoscopia na qual se desenha sobre cada frame. Célebre pela fluidez de “Waking Life“, os resultados actuais deixam a desejar as indicações possíveis para a aplicar, se assim se lhe pode referir.

- De relevar a excelente banda sonora, onde supreendentemente se ouve Black Swan de Thom Yorke.

- O filme de Linklater é uma adaptação perfeita, em termos argumentativos, da obra de Philip K. Dick, todavia ao chegar ao fim parece que tudo foi demasiado fluído e pouco intenso, sem dúvida, atribuível à rotoscopia. Falta a “Scanner Darkly” a intensidade de um consumo abusivo, o impacto da despersonalização e talvez a aleatoriedade emocional necessária a um tema destes.

*** Bom (-)

(Para ler, uma entrevista de Richard Linklater aqui).


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