Adriana

Margarida Gil, 2005 (Portugal) – os

- Numa ilha ficticia dos Açores, Edmundo, após a morte da mulher durante o parto de Adriana proibe que haja sexo entre os habitantes. Com o tempo, a ilha corre o risco de ficar deserta e Edmundo decide dar o seu exemplo, enviando o seu mais precioso tesouro para o continente com o objectivo de "constituir familia por métodos naturais". Adriana é um filme ousado, que com esta premissa tinha tudo para ser um bom filme, mas ao fim de 30 minutos apercebemo-nos que estamos perante uma dolorosa desilusão cinematográfica.

- O filme começa na ilha, com a morte da mãe de Adriana e a revolta de Edmundo, em que se destacam as paisagens únicas da ilha do Pico. O contraste negro da basalto com o verde exuberante que nos conduz pelas vinhas do Pico até à montanha. O tempo vai passando, enquanto os homens são cada vez mais raros na ilha, partindo para a América em busca do sonho de sempre e as mulheres, vão envelhecendo amarguradas pelo destino imposto por Edmundo.

- O filme desperta para uma atmosfera onírica, povoado de um sotaque micaelense misturado com picaroto. De facto, é curioso a ilha ser o Pico, a maior parte das personagens serem micaelenses e o barco da América ser o barco que faz as viagens inter-ilhas. Mas estes são pormenores que só um ilhéu, talvez, reconheça e devem ser desculpados pela atmosfera mágica deste inicio do filme. Contudo, não deixa de ser agradável rever Gilberta Rocha, a voz grutural de Zeca Medeiros ou a paisagem do Pico.

- Todavia, a chegada de Adriana a Lisboa não é só a transição do rural exuberante para o urbano negro e desconhecido de uma cidade agitada. É também, o inicio de uma sucessão de cenas desalinhadas, deixadas ao avulso e sem objectivos. A narrativa perde-se e os diálogos são extremamente frágeis que oscilam entre o vulgar, a tentativa cómica e o pretenciosismo moral e de costumes, acentuando-se a pouca qualidade de um elenco que não consegue convencer, à excepção de Adriana, Saturninho e o pequeno Amadeu.

- Depois de ser assaltada no aeroporto de Lisboa, Adriana vagueia pelas ruas desculpando-se e procurando resposta para o seu azar. A ingenuidade de Adriana é magistralmente representado por Ana Moreira, que acaba por chegar a um café num bairro de Lisboa. Entretanto, perde outra mala e é indagada pela origem do seu sotaque repetidamente e num numero exagerado de vezes. No café, conhece Estela que a ajuda e leva para casa, onde tudo vai mudar.

- O filme conduz-se num inicio onirico, numa chegada quase almodovariana a Lisboa e ao universo de Saturninho, num road-movie sensual numa motorizada de caixa, passando pelo portugal litoral e Apúlia até um barroquismo num solar português. Teria funcionado, mas as falhas narrativas são enormes, perdendo toda a consistência a favor de um facilitismo e de uma tentativa de ser diferente.

- Inevitavelmente, Adriana regressa à ilha, de ventre vazio e alma desfeita. Desiludida com o continente e a mesquinhez das pessoas. Magoada com o seu fracasso, na esperança de voltar a ser Adriana e mergulhar nas águas puras do Pico. Entretanto, nasce uma nova criança na ilha, às escondidas de Edmundo, fruto do Espirito Santo. Talvez…

** Razoável

Melhor Filme Português no IndieLisboa 2005.


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